domingo, 22 de maio de 2011
DWX2201
A vida é tanto e tão cheia de possibilidades
as vezes vivemos no tão pouco por comodidade
Ha tempos não escrevo
minha mente se acomodou de cansaço
embarquei de carona numa nave com destino incerto
saí do meu planeta natal pra viajar livremente pelo espaço
ha tanto pra se ver, sentir, ouvir, conhecer e fazer
que deslumbrada com esse universo de possibilidades
a única coisa que consigo fazer é descobrir e viver essa nova aventura.
Ha muito que meu planeta natal estava em guerra
abandonado e destruído
pela vastidão de suas terras apenas ruínas e destruição
catástrofes sem previsão
havia se tornado um lugar inóspito e hostil
o belo sol da manhã e do entardecer já não podia ser visto pois densas núvens encobriam seu brilho e sua cor tornando todo o espetáculo diário da auróra e crepúsculo em apenas variações de luminosidade em tons de cinza
os mais belos aromas eram encobertos pelo cheiro de decomposição em massa
e eu sozinha e perdida naquele lugar imenso acabava sofrendo na pele as consequências de tamanha degradação
não havia mais alimento e eu definhava lenta e dolorosamente junto com meu planeta, assim como ele em mim não haviam mais cores em uma órbita que se distanciava cada dia mais do sol ele ia me levando para um destino certeiro de frio, escuridão e esquecimento.Meus sentidos iam ficando cada dia que passava mais anestesiados, escondidos, a vontade de me tornar parte de toda aquela poeira e inércia ia crescendo cada dia mais
o chão seco e estéril de pedra foi se tornando cada dia mais agradável, o ar rarefeito e fétido, o único que tinha disponível, já não me era mais tão desagradável, o frio que se aproximava cada dia mais ia congelando meus movimentos, meus pensamentos, e quando me dei por mim, eu já era aquele planeta, o planeta era eu, e eu, era nada!
eu era chão de pedra e pó
coisa assim que nem se sente dó
pois não se sente mais nada
sentimento era piada
piada que não se ri, pois tudo que aquilo era
era nada
o tempo passava e tudo continuava parado
apenas existindo, ocupando espaço e inutilizando matéria.
Longe, bem longe dalí viajava uma belíssima nave, a melhor que já se havia tido notícias
ela viajava eu uma missão exploratória
visitava planetas distantes, colhia amostras e ia a cada parsec acumulando dados para suas pesquisas
a nave era extremamente precisa e eficiênte em sua diretriz
nunca havia dado defeito de software ou hardware
sua inteligência artificial era a mais avançada e complexa que já se havia tido notícias
alguns especulavam até que ela já havia se equiparado com mentes orgânicas
outros achavam que ela já havia superado esse limiar
a nave sobrevoava o sistema solar onde meu planeta orbitava em busca de novas informações
porém a orbita de meu planeta já havia ha muito se afastado da estrela e a nave não saberia de minha existência
nem eu sabia da existência da nave
ela fez seu percurso usual, calculou os dados da estrela, tamanho, idade, temperatura, material e seguiu rumo aos planetas
passou pelo primeiro, uma rocha esférica e esturricada, castigada pelos bilhões e bilhões de anos próxima ao calor
escaldante da estrela, alí não tinha nada pra ser visto, fez um rápido scaneamento para garantir que não havia nenhuma
anomalia e seguiu adiante. Passou por mais alguns planetas estéreis sem encontrar nada fora do normal, num determinado
momento a nave diminuiu sua velocidade e entrou em estado de alerta, estava entrando na zona habitável, a partir dali
qualquer planeta teria imensas possibilidades de conter algum tipo de vida de surgimento espontâneo, uma rápida analise, e a nave constatou a presença de três planetas alí.
O primeiro, um gigante azul, era coberto por um imenso oceano, sua gravidade era elevadíssima devido o seu tamanho descomunal, alí havia algumas formas de vida bem simples, plantas e alguns invertebrados primitivos, os dados foram coletados e a nave seguiu em frente.
O segundo, um planeta relativamente pequeno, continha vida abundante habitando ar, terra e água, os seres que alí estavam
eram ainda muito primitivos, na sua maioria vida vegetal, os dados foram coletados e a nave seguiu em frente.
O terceiro, uma rocha robusta deu um pouco mais de trabalho para a nave, analizando sua superfice ela pode notar traços de organização artificial, aproximou-se, notou que alí não havia nada vivo, porém os vestígios e ruínas eram indícios de que alí ha muitos e muitos anos já houve vida inteligente, a nave ficou intrigada, o que será que aconteceu pra todo mundo desaparecer? Com sua capacidade exorbitante de procesamento a nave colheu informações e amostras e com esses dados foi capaz de calcular o que havia acontecido. A civilização que alí habitava foi muito próspera, descobriu muito sobre o universo e sobre eles mesmos, desenvolveram tecnologia, arte e evoluíram muito, porém, os seres vivos dali, assim como todos os outros estão sucetíveis a caoticidade do universo, qualquer desequilíbrio pode ser devastador. Um gigante asteróide errante estava vindo de encontro ao planeta, a civilização que alí habitava pode prever a chegada dele e com isso escapou para o planeta habitável mais proximo, a descoberta desse evento causou muita discórdia e guerras entre eles, só que não contavam com o inesperado, o asteróide desviou sua tragetória e acertou o planeta de refúgio em cheio causando um estrago tão grande que desestabilizou a orbita dos planetas mais próximos.
Eu estava lá, pude ver toda a destruição acontecer, primeiro um imenso choque, explosões, vento e fogo, conforme o tempo foi passando, o que parecia calmaria era como um câncer que se espalhava lenta porém eficientemente aniquilando toda forma de vida castigando-as com frio, fome, escuro e com a incerteza do proximo dia, vi tudo e todos morrerem, fui ficando mais e mais sozinha a cada dia que passava, quando me dei conta tudo o que eu tinha era a carcaça daquele lugar que um dia pareceu pra mim a solução de todos os problemas.
A nave estava seguindo seu caminho quando notou uma anomalia no campo magnético do sistema planetário, havia algo que desestabilizava a orbita dos outros planetas, era um traço muito fraco de energia mas que por sorte minha pode ser notado por ela que seguiu em busca da fonte. Em questão de segundos lá estava ela, pairando sobre a esfera cadavérica onde eu me encontrava, circulou o planeta e notou que havia alí uma imensa cicatriz de um choque violentíssimo, os residuos de rocha ainda orbitavam o planeta e uma escura e densa atmosfera escondia a superfice rochosa, a nave ficou curiosa. Numa manobra calculada e precisa adentrou as profundezas nebulosas, enfrentou tempestades elétricas, gases tóxicos, colheu dados e amostras e seguiu adiante, poucos segundos e a nave encontrou a superfice pobre e castigada do planeta que era meu, a nave escaneou o ambiente e pode notar que alguma coisa estava emitindo energia, um leve e quase imperceptivel traço de energia e calor, foi em busca dessa anomalia pra colher dados.
Lá estava eu inerte de corpo e mente, já havia abdicado de tudo que podia ser ou me acontecer quando escutei um som distante, aquilo foi extremamente novo, não me lembrava mais de como era escutar, o som era peculiar e crescente, minha alma carente pulou de emoção e não se conteve de curiosidade, apesar de estar alí entregue ao destino, a esperança não havia morrido, não havia e eu não sabia disso de tão mergulhada que estava no conformismo e inércia que haviam se apossado de mim. Conforme o som crescia pude notar um brilho no meio das núvens que vinha em minha direção, não nego que senti muito medo,mas curiosidade era muito grande e eu já não tinha mais nada a perder, meu olhar ficou fixo, quase hipnotizado naquela nova experiência, a nave pousou do meu lado e pude notar como era bela, seu exterior era reluzente, sua forma atraente, de dentro dela pude ouvir uma voz grave e tranquila que me disse:
-Olá, você está bem ?
Parecia mentira, ela estava se dirigindo á mim! Não fui capaz de dizer ou expressar nada tamanho meu espanto e emoção.
Ela repetiu:
-Olá, você está bem ?
Num impulso inesperado acenei negativamente com a cabeça, meu inconciente estava pedindo ajuda, a nave então falou
-Posso ajuda-la no que precisar, embarque.
Uma porta se abriu e uma escada se desdobrou da nave em minha direção, a escolha parecia tão óbvia, tão certa, mas algo em mim havia criado raizes naquela desgraça de lugar, talvez pelo medo do novo ou pelo conforto da rotina imutável, só sei que o que me parecia tão certo de fazer se tornou algo doloroso, tive medo, hesitei, a nave então disse:
-posso notar que é uma vida baseada em carbono, que necessita de calor, água e calorias para sobreviver, noto também que este planeta não tem nenhum desses recursos, se permanecer aqui irá perecer, é essa sua escolha?
A insistência da nave e meus instintos de sobrevivência foram suficientes pra que eu desse o primeiro passo, estava tão debilitada que após isso caí e não pude ver mais nada.
Acordei em um lugar estranho, estava deitada e coberta em uma cama muito confortável, me levantei e logo a nave disse:
-Seu corpo não possuía mais energias, por isso desmaiou, vejo que está melhor, gostaria de mais alguma coisa?
-gostaria de saber onde estou e quem é você?
-Vc está viajando pelo espaço a bordo da nave DWX2201, sou a inteligência artificial encarregada de comanda-la
-Interessante, e pra onde vamos?
-Para todos os lugares!
Não pude acreditar no que acabara de escutar, eu que tinha todas as minhas esperanças acabadas, nenhuma perspectiva de futuro tinha agora todo o universo em minha frente pronto pra ser descoberto e explorado, meu peito se encheu de um sentimento profundo e maravilhoso e me senti feliz como nunca havia sentido antes, meu coração estava acelerado e não pude conter lágrimas de emoção, corri para a janela mais próxima e o que vi foi incrível, uma gigante nebulosa, colorida e brilhante, o lugar onde surgem as estrelas, onde planetas irão orbitar e a vida com sorte também surgirá, toda essa beleza e imensidão estavam alí o tempo todo mas meu mundo e minha vontade eram tão limitados, que vivia presa e sozinha sem conhecer as maravilhas do cosmos, agora o universo me pertence, cada dia é uma nova aventura, não me canso de descobrir coisas novas pois todas as possibilidades estão disponíeis agora, sou mochileira das galaxias e a bordo de minha nave sigo a cada dia apreciando e aproveitando a maravilha que é estar viva.
Vida longa e próspera.
"E do peito vazio
escuro e com frio
um lampejo crescente
na alma carente
que surge e aqueçe
que brota e floresce
beleza de flor
renasce o amor"
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